Apresentação do Gesta Mães


      O Gesta Mães é a união de Mahadevi e Apoio Materno. É também a união de duas profissionais com paixão e experiência profissional na área perinatal, Ana Trevisan e Juliana Sell.
     
      Gesta Mães nasceu para proporcionar às gestantes/casais e mães de bebês até o primeiro ano de vida grupos de troca, informação e apoio.
   
      Nosso foco principal  é a prevenção e a promoção em saúde na gravidez, parto e pós parto, pois, sabemos da importância deste momento de vida, da grande transformação individual e familiar que ocorre.

      Num ambiente acolhedor buscamos alcançar nosso foco através de encontros que possibilitem troca de saberes entre as (os) participantes, vivências, informações atualizadas, orientações de cunho prático e subjetivo.
 
   

Aborto Espontâneo - Gravidez Interrompida

 

"Não é pela duração que uma vida vale a pena, 
é pelo amor, pelas pessoas que toca". 
   
Cuidar do nascimento e da vida é algo muito alegre e gratificante. No entanto, como parte da trajetória da vida, inevitável não passarmos por momentos difíceis e dolorosos. Não quero com isto focar naquilo que pode dar errado, mas simplesmente manifestar a minha experiência pessoal e profissional diante da interrupção de uma gravidez.
     Assim como a maior alegria de uma mulher que deseja engravidar é a notícia de uma gravidez, a maior tristeza é a interrupção desta de uma forma repentina e sem nenhuma explicação racional. A mulher vai de um pólo emocional a outro com muita rapidez e neste momento é preciso muito amparo e acolhimento por parte da família, dos amigos e de profissionais da saúde de sua confiança.
     O luto precisa ser vivido, sentido e acolhido. Cada mulher e cada família terá a sua forma de viver esta dor e é claro que não existem fórmulas. Falar sobre, recolher-se, estar em companhia de pessoas queridas e amadas, escrever, chorar sozinha, chorar acompanhada, lamentar-se, espairecer, esperar o tempo passar, tudo isto pode ser importante. Mas, me parece que fingir que nada aconteceu e tocar a vida normalmente é uma agressão ainda maior do que a própria perda.
     Grande parte das interrupções de uma gravidez acontecem até as 20 semanas de gestação, estas são chamadas pela medicina de Aborto Espontâneo. Você vai encontrar pela internet que abortos espontâneos são mais comuns do que imaginamos. Existe uma estimativa que aproximadamente 20% das mulheres que engravidam perdem o bebê antes das 20 semanas e destas, 80% perdem antes das 13 semanas. Mesmo sabendo desta estimativa, quando vem a notícia de uma interrupção, a sensação é avassaladora. Não somente a mulher, como o homem (no caso de um casal grávido), como a família, todos sofrem, e a mulher pode virar alvo de culpa e frustração.
      A seguir, texto copiado de Wikipédia, a enciclopédia livre: “Aborto espontâneo é o término acidental de uma gravidez com menos de vinte semanas de gestação. A causa mais comum é um defeito cromossômico no embrião ou feto que impede seu desenvolvimento natural. O defeito pode ser hereditário, causado pela exposição da mãe a certos medicamentos ou radiação, ou resultar de doenças infecciosas.O primeiro sintoma de um aborto espontâneo é sangramento vaginal. Isto requer atenção médica imediata. (...) O segundo sintoma são cólicas abdominais, seguidos de contrações uterinas com grande frequências e dores fortes, e depois de ter ocorrido todos esses sintomas a genitora sente vontade forte de urinar e defecar e assim acontece a eliminação do feto (ou embrião). Muitas vezes, porém, a gestante necessita sofrer uma curetagem.” wikipedia.org/wiki/Aborto_espontâneo [Acesso em 4 de janeiro de 2012]
          Mesmo que a maior parte dos abortos espontâneos não tenham uma causa específica, a mulher provavelmente se sentirá culpada, e neste momento, muitos fantasmas, medos e fantasias poderão aparecer. Tudo isto precisa ser acolhido e revisado. É muito importante que as pessoas capazes de dar suporte a esta mulher tenham clareza de que nesta situação não existem culpados, de que seu corpo saudável expeliu um bebê que não poderia vir ao mundo naquele momento. Não significa que seu corpo não foi capaz, pelo contrário, significa que seu corpo foi sábio, que fez o que era para ser feito. A maioria dos abortos espontâneos não apontam para uma causa específica e ficar sem uma resposta lógica é bem angustiante. Contudo este me parece, justamente, um dos grandes aprendizados que uma gravidez interrompida pode trazer: de fato, não temos qualquer controle sobre a vida ou a morte.
     Saber que é algo “normal” não vai reduzir a dor da perda, mas de alguma forma vai facilitar o entendimento e a elaboração desta. Um corpo feminino saudável tem capacidade de interromper uma gravidez não saudável como um processo natural de seleção. A mesma natureza que deu a vida retira a vida que não podia ser continuada.
     Conversar com outras mulheres que já viveram esta dor, ver que conseguiram superar, se fortaleceram e tiveram mudanças importantes a partir disto pode também ser confortante. Apegar-se na fé, na crença de que algo maior governa este universo também pode ajudar. Rodear-se de pessoas que tem condições de dar acolhimento e focar naquilo de bom que esta experiência pode ter trazido, como por exemplo, a união ainda mais próxima com o parceiro, com a família ou alguns amigos também pode ser confortante. Nestes casos de aborto espontâneo é provável que a mulher engravide novamente daqui a alguns meses e toda esta vivência servirá de aprendizado, crescimento e fortalecimento para sua vida.
     Caso a mulher tenha sofrido a perda depois das 20 semanas, onde já aparecia barriga e já sentia seu bebê mexer, caso tenha tido toda uma gestação e tenha perdido seu bebê logo após o nascimento, o sofrimento é ainda mais avassalador. Nestes casos sugiro acompanhamento de um profissional capacitado, muito mais apoio, tempo de luto e acolhimento ainda maior. Raras são as mulheres que junto com a perda de seu bebê perdem o útero e com ele perdem todas as esperanças de ter um bebê novamente. Sentimentos de culpa, medo, confusão mental e tristeza profunda podem ser tão destrutivos que a mulher possa precisar de um suporte medicamentoso por algum período.
    Quando perdi meu bebê minha obstetra me escreveu uma frase que foi muito importante pra mim naquele momento, ela me disse que já tinha escutado de uma outra mulher que havia perdido o bebê: "Não é pela duração que uma vida vale a pena, é pelo amor, pelas pessoas que toca".
    Algumas pessoas me deram um apoio importante, outras me decepcionei um pouco, dentre alguns aprendizados que esta experiência me trouxe, o mais valioso foi o amor. Como esta experiência tão dolorida no corpo, na mente e na alma é capaz de nos aproximar ainda mais de quem amamos e nos deixar ainda mais fortes. O amor se sobressai e vem como um bálsamo, nos faz lembrar que nada é mais importante.
    Uma parteira amiga me mandou um poema que recebeu quando ela mesma perdeu um bebê (quando você começa a contar que perdeu um bebê, você pode se surpreender de quantas mulheres que você gosta e admira já passaram por isto). Quando recebi este poema agradeci muito a ela e tive a certeza de que poderia ser importante para outras mulheres também e então divulgarei aqui, encerrando este texto com muito amor, muita fé na vida e nas suas interrupções.

VENTO PASSAGEIRO


Uma ventania veio forte, e passou,

Trouxe sonhos, esperanças

e muita alegria.

Mas como brisa passageira

não pode ficar.

São assim os desígnios de Deus,

e a vida passa.

Por mais que teimamos em não aceitar,

passamos assim mesmo,

como o vento, a brisa, os gestos,

tudo no ar.

Momentos tristes e alegres,o que fica?

O amor, o amor, Amar.

Melhor assim, ainda podemos amar.

Amamos o que seria,

amamos os que são,

e também o que virá.

Há de chegar o dia, que ele voltará,

Maduro, pronto, não mais vento,

Muito menos passageiro,

Pois também amará

E amado eterno será.


(Paulo Afonso Condé, 2005)