A Dor no Parto e Medidas de Alívio

Escrito por Ana Trevisan em Março de 2011.
   
     Popularmente a dor no parto é conhecida como das piores dores que o ser humano pode experimentar. Crescemos ouvindo que aquilo que é de mais difícil a ser enfrentado “é um Parto!” e se desvincular disto na gravidez pode ser tão difícil quanto escolher um parto natural dentro de uma cultura de cesarianas. Além de questionar o terror que se criou em cima da dor no parto, meu objetivo com este texto é apresentar medidas naturais de alívio de dor no parto. Rapidamente, também cito algumas medidas farmacológicas.
         É interessante notar que não aparece no relato (de muitas mulheres que pariram naturalmente seus bebês) uma dor insuportável. Na minha experiência com grávidas aparecem relatos de uma dor variável capaz de ser suportada de acordo com a posição escolhida e com as condições do meio ambiente ao seu redor. Conforme Pamplona (1999) “a dor não é inerente ao parto, mas pode ser provocada por causas diversas, que vão desde as patologias anátomo-fisiológicas aos condicionamentos e tensões psicossociais e a iatrogenias médicas e de conduta da própria parturiente.” (p.16)
     Certa vez ouvi de um obstetra muito experiente uma estatística que me chamou atenção, ele disse:
                              10% das mulheres não têm dor no parto
                              80% das mulheres têm uma dor suportável
                             10% têm uma dor que não é possível suportar
     Dentro disto, costumo lembrar que para o percentual de mulheres que tem uma dor insuportável temos medidas farmacológicas de alívio de dor que podem ser muito bem vindas! E aqui cabe elogiar o avanço da ciência em ser capaz de nos proporcionar alívio de dores que não podemos sustentar sem ajuda. É claro que cada mulher e cada pessoa medirá sua dor conforme aquilo que for possível.
     Vale destacar que a dor, assim como, a percepção da dor é diferente para cada pessoa. Além disto, cada um de nós terá um tipo de resposta à dor, lidando com ela de diferentes formas. Neste sentido, também as medidas de alívio da dor são mais ou menos eficazes conforme cada mulher. Aquilo que pode ser alívio para umas, pode ser o desconforto para outras. Por isto é importante que a mulher busque informações pertinentes, que entre em contato com suas preferências e suas dificuldades a fim de que possa buscar aquilo que necessita.
      A dor no parto acontece no período onde o colo do útero está se abrindo para a passagem do bebê. Dizem os autores da humanização do nascimento que quanto mais à mulher estiver com medo, menos sua dilatação irá progredir e mais dor ela terá. Em Pamplona (1999) é citado que Dick-Read, um obstetra inglês, formulou a hipótese de que a dor no parto normal vem de uma da ativação do sistema nervoso autônomo, provocada pelo medo, que acusaria um excesso de tensão no útero. Para quebrar o ciclo medo-tensão-dor, Read criou um método que consistia em fornecer às gestantes informações corretas sobre a gravidez e o parto e ensinar-lhes relaxamento muscular. (PAMPLONA 1999)
          Se existe uma relação importante entre medo, tensão e dor podemos modificar a dor conforme criamos um ambiente seguro e acolhedor. Tão importante quanto à mulher se sentir segura é a equipe ao seu redor fornecer o apoio necessário, incentivando e encorajando a mulher para dar á luz ao seu bebê. “As reações de uma mulher à dor durante o trabalho de parto podem ser modificadas pelo ambiente no qual ela dá à luz e pelo suporte que recebe dos profissionais e acompanhantes, assim como pelos métodos usados de alívio da dor.” (ENKIN 2005, p.169)
    Nesta lógica, quanto menos resistência a mulher oferecer à dor, quanto mais puder confiar no seu corpo e entregar-se para o processo, menos dor ela terá. Quando seu bebê estiver em seus braços e ela se sentir bem disposta para cuidar dele sem a dor de uma recuperação pós cirúrgica, todos os seus esforços terão valido a pena.    
MEDIDAS NATURAIS PARA O ALÍVIO DA DOR
1.      Movimentos e mudanças de posições maternas: Mulheres em trabalho de parto relatam menor dor em algumas posições do que em outras. Quando possuem liberdade de movimentos, adotam espontaneamente posturas em movimento, de pé, caminhando, sentando, movendo seus quadris e sempre com a postura do tronco na verticalidade ou inclinada. (BALASKAS, 1993) As posições que usam a gravidade e/ou maximizam a largura da pelve, como por exemplo, a posição de quatro apoios podem ajudar a rodar a cabeça do bebê. Os giros pélvicos são muito indicados (movimentos espirais). “Quando a mãe muda de posição, altera as relações entre gravidade, as contrações uterinas, o feto e sua pelve. Isso pode estimular o progresso no trabalho de parto e reduzir a dor.” (ENKIN 2005, p.170)
2.       Contrapressão: aplicação de uma força contínua em um ponto da região lombar, durante as contrações, utilizando a base da palma da mão ou um objeto firme, ou em pressão nas laterais dos quadris, utilizando as duas mãos.
3.      Calor e frio superficiais: Objetos quentes ou mornos, como bolsas de água quente, toalhas úmidas aquecidas, almofadas elétricas, compressas de gel de sílica aquecidas, cobertores e duchas. O frio pode ser obtido com bolsas de gelo, pedras de gelo, compressas congeladas, toalhas umedecidas em água gelada. Ambos podem ser eficazes. “Aplicação de compressas quentes à parte inferior do abdome, região inguinal ou períneo, de um cobertor aquecido sobre todo o corpo ou de compressas de gelo na região lombar, no ânus ou no períneo alivia a dor de algumas mulheres.” (ENKIN 2005, p.170)
4.      Imersão em água durante o trabalho de parto e parto: As propriedades benéficas e analgésicas da água – quente ou fria, corrente ou parada, pulverizada ou derramada- forma aclamadas durante séculos. A água tem um efeito relaxante, “alguns dizem que pode acelerar o trabalho de parto, reduzir a pressão arterial, aumentar o controle materno sobre o ambiente do parto, resultar em menos traumatismo no períneo e menor necessidade de intervenções em geral e introduzir o bebê no mundo com suavidade.” (ENKIN 2005, p.171)
5.      Toque e massagem: O uso do toque pode transmitir mensagens de alívio da dor. A colocação da mão sobre um ponto dolorido, um afago ou um gesto de afeição, um abraço firme ou uma massagem facilitarão com que a mulher se sinta ainda mais segura para dar à luz.
6.      Focalização da atenção e distração: Retirar a atenção da dor faz que ela perca a força. A concentração da atenção pode ser obtida quando focamos, por exemplo, na respiração padronizada, na repetição de um mantra, ou ainda, alguma visualização. 
7.      Música: Preparar um CD ou DVD, com músicas que tragam alguma inspiração pode ser algo muito positivo. Além de retirar o foco da dor, a música tem o poder de nos levar em diferentes estados e nos trazer diferentes sensações que farão um clima acolhedor e familiar, facilitando o processo do parto. È interessante descobrir se no local onde dará a luz tem disponível este recurso e de repente estar pronta para levar um aparelhinho de som portátil.
8.      Ambiente que favoreça segurança e conforto: Um ambiente onde a mulher se sinta segura e confortável reduz o trinômio medo-tensão-dor. “Criar um clima” levando velas, flores ou objetos pessoais importantes pode criar um ambiente acolhedor que facilitará o processo. A mulher também precisa se sentir segura em relação aos seus acompanhantes, sendo fundamental que tenha um suporte atencioso e encorajador por parte da equipe que a acompanha.
     Existem também outros recursos alternativos e não farmacológicos que podem ser muito interessantes como alívio da dor, como por exemplo, acupuntura, acupressão, floral, aromaterapia, homeopatia, haptonomia. Mas, todos estes precisam ser administrados por um profissional capacitado. 
MEDIDAS FARMACOLÓGICAS
1.      Método sistêmico: opióides (derivados da morfina e afins) que atuam de forma sistêmica no organismo. Estando na corrente sanguínea da mãe, vai também para o bebê. Comprovado risco de depressão respiratótia neonatal e pontuações mais baixas nos testes neurocomportamentais (dificultando o início da interação mãe-bebê e amamentação). Na mãe pode causar sonolência, náuseas ou vômitos. Pode ser administrado pelo obstetra.
2.      Métodos de bloqueio regional da dor: deposição do anestésico local próximo às vias de condução nervosa permite analgesia seletiva, sem depressão do feto. As complicações estão relacionadas à punção, como hematomas ou abcessos, ou à toxidade sistêmica dos anestésicos locais por administração intravenosa inadvertida.
3.      Analgesia Peridural: a inserção de um cateter no espaço peridural permite a cuidadosa titulação da dose de anestésico e a manutenção da analgesia, de acordo com as necessidades obstétricas. Anestésicos locais + analgésicos opióides podem ser administrados isoladamente ou associados. Suas contra-indicações formais são poucas, incluindo-se a coagulopatia materna, infecção no local da punção, queda da pressão (instabilidade hemodinâmica resultante de hipovolemia) e recusa materna. Tende a proporcionar analgesia mais eficaz, mas pode resultar em aumento significativo de parto cirúrgico. (BRASIL 2001)
4.      Raquidiana: Anestésico injetado dentro do líquor. Produz relaxamento e analgesia bem mais intensa. A agulha precisa ser muito fina e dura para penetrar profundamente, pois caso haja vazamento do líquor por agulha grossa ou erro médico, pode causar fortes dores de cabeça na mãe posteriormente. Outro efeito colateral comprovado é a queda da pressão arterial materna.
5.      Bloqueio combinado: Raquidiana + Peridural
REFERÊNCIAS
BALASKAS, Janet. Parto Ativo: Guia Prático para o Parto Natural. São Paulo: Ground, 1993.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Parto, Aborto e Puerpério: Assistência Humanizada a Mulher. Brasília: Ministério da Saúde, 2001.
ENKIN, M; KIERSE, M.; RENFREW, M. ; NIELSON, J. Guia para atenção efetiva na gravidez e no parto. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2005.
PAMPLONA; Vitória. Mulher, Parto e Psicodrama. São Paulo: Ágora, 1999.

2 comentários:

  1. Oi Ana, adorei o texto!!!uma coisa interessante que o Dr. marcos Leite me disse durante a gravidez e que me marcou, foi que os hormonios envolvidos no processo do parto e principalmente no momento da expulsão são os mesmos que estão ativos no momento do orgasmo, e para que ocorra qq um destes processos deve haver entrega, concentração e principalmente relaxamento...achei isso muito legal! e ele finalizou dizendo que seria muito bom que o bebe nascesse no mesmo local que foi gerado!!!!
    No meu caso fez toda a diferença!
    bjs
    Renata

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  2. completando o que a Renata diz, fui estimulada a ter relações sexuais até o nascimento (enquanto me sentisse confortável e a última foi na noite em que entrei em trabalho de parto)....na busca do relaxamento do orgasmo e facilitação do trabalho de parto. Márcia

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