Sobre a mãe e o bebê – Psicologia Perinatal

     Todos nós já estivemos no ventre materno um dia, todos nós já fomos bebês e todos nós temos uma história única para contar. Nossa limitada memória não é capaz de acessar todas as experiências de vida que tivemos, mas em algum lugar do corpo e da mente está tudo grifado.

"Provavelmente, todas as pessoas tenham em si uma câmara interior, mais ou menos escondida, na qual se encontram os elementos de seus dramas de infância. Os únicos que certamente terão acesso a essa câmara serão seus filhos. Eles trazem vida nova para o lugar, e a história pode continuar." (MILLER 1997, p.34).

       Desde a gestação, a vinda de um bebê reaviva a própria experiência infantil, mesmo que nunca se tenha consciência disto. Não é raro, por exemplo, as mulheres relatarem que os desejos tidos na gravidez remetem aos desejos e hábitos que tinham na própria infância. Além disto, em minha prática clínica, volta e meia escuto mães e/ou pais comparando o filho(a) que tiveram com a própria criança que um dia foram. A grande beleza disto é a possibilidade de atualizar e restaurar a própria história na relação estabelecida com os próprios filhos.

      Perls et al (1997) afirmam que mãe e bebê não podem ser percebidos isoladamente, pois, ambos são partes de um mesmo campo interacional. Além disto, “os sentimentos reprimidos do adulto são atribuídos à criança” (PERLS et al. 1997, p.79). Antony (2010) também chama atenção para este fato e diz que “os distúrbios psicológicos e comportamentais da criança geralmente advêm dos dramas e tragédias dos pais que são projetados na criança” (p.83). Neste sentido, fica clara a necessidade de cuidar da saúde dos pais, para que possam perceber o próprio comportamento, refletir sobre ele e ter a possibilidade de fazer diferente. 
Pintado por Flamarion Trevisan
      Como nos ensina Perls (1988) é somente através da conscientização que a pessoa pode realizar alguma mudança e mudar quer dizer aprender que algo diferente é possível. Foi na relação com o meio que a interrupção teve origem e é nesta relação que poderá ser restaurada (AGUIAR 2005). Este é o objetivo do processo de terapia dentro da abordagem gestáltica, aumentar a percepção da pessoa sobre ela mesma, para que a partir disto, formas mais autênticas e espontâneas de comportamento possam aparecer. 

     Não podemos perder de vista, contudo, que da mesma forma que o bebê é influenciado, ele também influencia o meio ao seu redor. Quer dizer, o bebê é ativo e não está simplesmente recebendo o que acontece ao seu redor passivamente. Ele já traz consigo suas particularidades, suas próprias tendências e seu próprio estilo.

      Na psicologia sabemos que aquilo que vivemos na infância, de alguma forma, nos constitui. Sabemos também, que apesar disto, não estamos fadados a nada pois temos uma incrível capacidade de adaptação e originalidade. Aguiar (2005) explica que é nesta relação ativa e passiva, ao mesmo tempo, com o mundo ao redor, que a criança vai construindo sua própria individualidade de forma única, saudável ou não, com base nas possibilidades do meio e com base nos próprios recursos e necessidades.

Referências:

Aguiar, Luciana. (2005).Gestalt Terapia com crianças: Teoria e prática. Série Gestalt Terapia: Editora Livro Pleno.

Antony, S. (2010). Um caminho terapêutico na clínica gestáltica com crianças. (cap. 3) In S. Antony. (org). A clínica gestáltica com crianças: Caminhos de crescimento. São Paulo, SP: Summus editorial.

Miller, Alice. (1997). O drama da criança bem-dotada: Como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional de seus filhos. São Paulo, SP:Summus

Perls, F.; Hefferline, R. & Goodman, P. (1997). Gestalt Terapia. Trad. Fernando Rosa Ribeiro. São Paulo, SP: Summus.

Perls, F.S. (1988). Abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. 2ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Guanabara Koogan S.A.